sexta-feira, 9 de março de 2012

Mulher e trabalho: Carreira ou filhos?

Favorecer a missão da mulher na família é remédio para a sociedade 
e lucro para o Estado

ROMA, quinta-feira, 08 de março de 2012 (ZENIT.org) - Vivemos hoje em uma sociedade onde uma determinada cultura procura destacar-se de Deus, cancelar todos os valores que são a vida, o compromisso, a fidelidade, a atenção ao outro e que a mulher sempre transmitiu para a família porque é intrínseca na sua feminilidade.Fazendo acreditar que a própria realização da mulher esteja fora do âmbito familiar, em outros campos, propondo tudo como uma conquista, uma libertação, uma meta de felicidade garantida.

Segunda esta ‘visão’ a ‘vocação para a família’, o ocupar-se principalmente do marido e dos filhos, parece ser coisa de outros tempos, quase impensável e considerada até frustrante por muitas mulheres.

Sendo a família a célula da sociedade, é nela que nascem os futuros cidadãos e então não é possível delegar a tarefa de crescer e educar os filhos somente às escolas, instituições, à paróquia.

Isto foi evidenciado também pela Igreja: a mulher deve ser presente ativamente e com firmeza na família (...) pois é ali, sobretudo, que se forma a face de um povo, é ali que seus membros adquirem os ensinamentos fundamentais. Estes aprendem a amar enquanto são amados gratuitamente, aprendem a respeitar qualquer pessoa enquanto são respeitadas, aprendem a conhecer a face de Deus enquanto recebem a primeira revelação pelo pai ou pela mãe cheios de atenção (Carta dos bispos sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo).

A importância e o peso do trabalho da mulher dentro do núcleo familiar devem ser reconhecidos e valorizados. João Paulo II escrevia que o “cansaço” da mulher que dá a luz a um filho e depois o alimenta, cuida, trata do seu crescimento e educação – particularmente nos primeiros anos de vida – é tão grande que não deve causar medo no confronto com nenhum trabalho profissional (cfr Carta às famílias).

Este pensamento, infelizmente é muito distante daquele que prevalece hoje. Um certo feminismo, procura tornar a mulher sempre mais parecida com o homem, colocando-a em competição nas fábricas, escritórios, na política, nas instituições, “distorcendo-a” e levando-a a negligenciar os filhos.

Presumem que as crianças existam, pois muitas vezes a mulher em carreira "escolhe" não ter filhos, porque são vistos como um impedimento para o melhor desempenho do seu trabalho ou como um ônus a mais. Ou em um determinado momento, na altura em que a juventude deixou caminho a uma idade mais madura, se deseja um filho a qualquer custo. Sim, aquele filho que por muitos anos tentou evitar, agora o deseja, quase "por encomenda", sem perceber que é na verdade um grande dom de Deus, para pedir e proteger. E para acolher quando Deus quiser conceder-lhe.

É bom que a mulher trabalhe, contribuindo para o sustento famíliar e para o desenvolvimento da sociedade. A Igreja aprecia que esta tenha acesso a posições de responsabilidade, a fim de promover o bem comum e encontrar soluções inovadoras para os diversos problemas sócio-económicos.

O problema é que a atividade externa absorve muito do seu tempo e energia, tanto física quanto mental, tornando a mulher quase incapaz de responder plenamente à vocação de esposa, de mãe e de desempenhar adequadamente todas as tarefas a ela relacionadas.

Edith Stein, também conhecida como Santa Teresa Benedita da Cruz, escreveu que muitas mulheres são quase esmagadas sob o duplo fardo das obrigações do trabalho e da família. Sempre em ação, com pressa, sempre nervosa e irritada. De onde se pode tirar a serenidade e a alegria interior para oferecer a todos o sustento, o apoio, a direção?

E as conseqüências de tudo isso são as pequenas brigas diárias, as discussões com o marido e os filhos, que muitas vezes quebram a tranquilidade, a paz e a harmonia que deveria reinar entre as quatro paredes domésticas. É um erro pensar que podemos realizar melhorias na sociedade sem primeiro amar, sem ser atento e saber como sacrificar-se por aqueles que vivem ao nosso lado. Neste caso, a mulher não pode sentir-se realizada ou feliz, mesmo havendo um ótimo trabalho.

É por isso que a Igreja insiste em que a legislação e as organizações de trabalho não penalizem as exigências relativas à missão da mulher na família. E este é um problema não apenas e não tanto jurídico ou econômico, mas acima de tudo, é uma maneira errada de pensar, é um problema cultural.

Deve, assim, explorar adequadamente, primeiramente a nível de mentalidade, o trabalho das mulheres na família. Se não for assim, a mulher que dedica seu tempo em casa sempre será sempre penalizada do ponto de vista econômico e considerada, de certo modo, inferior àquela que em vez disso tem um emprego externo.

É necessário uma "mudança de pensamento" para ajudar as mulheres que querem desenvolver outros trabalhos, se a legislação proporcionasse horários mais acessíveis e compatíveis com a vida familiar. Seriam reduzidas as situações estressantes e fomentada a possibilidade de desempenhar o papel principal de esposa e mãe. Papel que é realmente insubstituível. Não se pode acreditar que é possível realizar essa tarefa dando às crianças dinheiro, presentes e tudo que for pedido, pois vai chegar o dia em que eles vão dizer que para eles não foi feito nada.

Muitas vezes os jovens de hoje se sentem vazios, sozinhos, mesmo tendo "tudo", falta a certeza de serem amados, a sensação de estarem realmente no centro da atenção dos pais, especialmente da mãe, porque ninguém pode tomar o lugar da mãe.

Crescerá madura e sem complexos aquela criança que tenha conhecido o calor dos braços de sua mãe. Nenhum psicólogo pode substituir o trabalho do coração de uma mãe que bate sobre o de seu filho.


Por Irmã M. Caterina Gatti ICMS

(tradução:MEM)


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Paciência - Hospitalidade - Responsabilidade

Por Isabel Baptista
Universidade Portucalense

Desafiada por mais de uma vez a escrever umas linhas para a Página, chego de novo à data limite sem o texto prometido. Não sei bem porquê, mas por mais que corra o tempo nunca me chega. Foi, pois, sobre esta aflitiva falta de tempo que resolvi escrever. Mais do que a aproximação das férias, mais do que a antecipação do gozo dessas horas de liberdade em que, finalmente, vamos ter tempo, interessa-me reflectir sobre o sentido, ou ausência dele, desta corrida diária contra o tempo.


Vivemos na era tecnológica, a Internet permite-nos o acesso quase instantâneo à informação mais longínqua e de dia para dia tudo parece ficar mais perto e mais fácil. Dispomos de aparelhos ultra sofisticados, deslocamo-nos com maior velocidade e até temostelevisão em movimento. Continuamos, apesar disso, cheios de pressa e ficamos furiosos quando alguém nos deixa pendurado, à espera. As horas mortas enchem-nos de pânico, por isso recorremos a pequenos truques para entreter o tempo. Porque o tempo entretido custa menos a passar ... E quando o vazio dessas horas se torna insuportável, podemos sempre adormecê-las, ou afogá-las.

Há também horas felizes. Foi numa delas que, a propósito de uma comemoração de vinte anos de curso, reencontrei há dias alguns dos rapazes e das raparigas do meu tempo. Porque na verdade o tempo a que chamamos nosso é o tempo da juventude, o tempo do sonho e da generosidade. O tempo em que acreditamos nas infinitas possibilidades dos amanhãs ainda distantes.


Estes encontros revivalistas são cada vez mais comuns, e ainda bem. Nostalgia relativamente ao que fomos ou ao que nunca chegamos a ser? Falta-nos tempo para nos pormos em questão, para nos interrogarmos. E sem interrogação não há abertura ao infinito ilimitado do tempo. Como sublinha Emmanuel Levinas, as recordações, à procura do tempo perdido, proporcionam sonhos, mas não devolvem as ocasiões perdidas. A verdadeira temporalidade, aquela em que o definitivo não é definitivo, supõe a possibilidade, não de recuperar tudo o que se teria podido ser, mas de deixar de lamentar as ocasiões perdidas perante o infinito ilimitado do tempo. Não se trata de comprazer-se num qualquer romantismo dos possíveis, mas de escapar à esmagadora responsabilidade da existência que se transforma em destino, de voltar atrás na aventura da existência para ser no infinito. Inspirando-se na experiência biológica, mas indo para além dela, este filósofo recorre à noção de fecundidade para descrever a relação do homem com a temporalidade. Na paternidade vive-se a espantosa experiência de relação com outra vida, com outra história, simultaneamente nossa e radicalmente outra. O que define o modo de ser humano no mundo prende-se com essa capacidade de relação com o que nos transcende e nos impele a ir sempre mais além. A verdade do tempo não cabe nos relógios nem nos calendários. Não é redutível à linearidade de instantes equivalentes entre si e totalmente mensuráveis. O essencial do tempo reside na possibilidade de ruptura e de recomeço que a ideia de fecundidade representa.


Só que esta abertura à juventude do tempo exige, por parte consciência, paciência hospitalidade. Paciência porque é preciso darmo-nos tempo para amarmos a vida com tudo o que ela oferece em termos de fruição. É preciso tempo para preguiçar ao sol, para apreciar a boa comida, para gozar um bom livro, para ter a conversa em dia e para saborear, no infinito de cada instante, a ternura dos pequenos gestos. É preciso tempo para partir à descoberta da cidade e enamorarmo-nos dela com a emoção de um primeiro encontro. Eu que vivo há mais de duas décadas nesta cidade, e que julgo amá-la profundamente, fui noutro dia confrontada com a minha ignorância quando pretendia exibir a cidade a uns amigos de fora.

Hospitalidade porque é preciso que a consciência se abra para deixar entrar, para deixar-se ensinar permanentemente. É preciso que a consciência se disponha a acolher a interpelação do tempo, arriscando o seu sossego e a sua comodidade. Sacrificando a segurança dos dias repetidos mas vivendo, em contrapartida, a relação com o diferente como desejo, descoberta, e reinvenção de si. Não é este afinal o sentido de toda aventura educativa?

Ligada à paciência e à hospitalidade, assim definidas, a necessidade de dar tempo ao tempo não significa quietude mas inquietude. No acolhimento da interpelação do tempo está em causa a ruptura com a rotina e com o egoísmo, dimensões que nos envelhecem e empobrecem a vida. Uma interpelação por vezes terrivelmente incómoda que nos é dirigida por rostos marcados pela dor, pela fome e pela violência. Rostos sem brilho de gente demasiado ferida na sua alma, na sua carne, na sua humanidade. Daí que a hospitalidade, enquanto experiência de abertura e de acolhimento, constitua o primeiro movimento em direcção ao compromisso. Um movimento que permite passar do eu sou, celebrado desde sempre pela tradição ocidental, para o eis-me aqui próprio da responsabilidade, como salienta Levinas em toda a sua obra.


A responsabilidade é sem dúvida uma palavra chave nos tempos que vivemos. Tempos incertos, feitos de privação, de sofrimento e de indiferença. Tempos que nos obrigam a pensar e a agir para lá da esfera das nossas necessidades e dos nossos interesses. Feitos também de esperança e de coragem. É preciso, pois, que as consciências se deixem afectar profundamente pelo espírito do tempo. Com paciência, hospitalidade e responsabilidade. Com capacidade de desprendimento em relação às formas mais sedentárias da existência, de desprendimento em relação aos pequenos afazeres que atravacam os nossos dias e estreitam os nossos horizontes. A juventude realiza-se como amor à vida e como atenção ao mundo e aos outros. Realiza-se na vontade de fazer a diferença, recusando chamar horas mortas a essas horas em que não nos resta mais do que olhar, escutar, ver e sentir. E se tivermos de correr que seja a favor do tempo. Porque a vida é curta e o tempo não perdoa.